Todas as tragédias que ceifam inúmeras vidas são tocantes. Terremotos, Tsunamis, Vulcões, Furacões, etc. Mas nos acostumamos a pensar que o Brasil estava livre dessas ações da natureza.
No início de janeiro entramos em contato de forma dura com essa realidade. O que ocorreu na Serra do Estado do Rio de Janeiro está longe de ser apenas uma mera conseqüência do descaso humano com a natureza ou do abandono político dos governos. Os sobreviventes narraram que sentiram um tremor, ouviram um enorme estrondo e em várias cidades serranas as pedras viraram plataformas de deslize, a vegetação se transformou em pó e bairros inteiros sucumbiram perante a destruidora força da natureza. Chovia muito, os rios transbordaram, houve enxurrada e destruição por todo lado. Eu acredito que houve um abalo sísmico e que isso não é conveniente de ser divulgado. Mas esse não é o foco desse texto, deixemos para um outro momento.
Fui a Friburgo no final do ano. Fiquei adiando essa pequena viagem, adiando, até surgiu um convite da Cristina. O sobrinho ia casar e poderíamos ficar hospedadas na casa da comadre e grande amiga. Fui a Friburgo para conhecer pessoalmente meu querido amigo de longa data da internet, Gustavo Sinder. Ao menos eu achava que havia sido por isso. Não conheci o Gustavo.
Hoje penso que estive ali para me envolver o suficiente com aquelas pessoas e agora não me furtar a olhar com olhos de pertencimento para tantos e tantos desabrigados da tragédia.
Quando tudo aconteceu minha primeira reação foi buscar notícias dos amigos. Gustavo nada sofreu fisicamente, mas creio que ficou para sempre marcado com o que viu. A casa onde fui recebida tão carinhosamente foi completamente soterrada, assim como todo o condomínio. Ali morreram famílias inteiras, algumas que conheci no casamento. A dona da casa, por uma dessas coisas inexplicáveis, foi dormir na casa da filha nesse dia e mesmo sem mais nada ter de seu, está viva.
Tudo foi muito rápido, inclusive a mobilização das pessoas para ajudar no resgate, no abrigo, nas doações e mais adiante nos atos de reconstrução do que foi perdido.
No mesmo momento eu quis participar. Não apenas doando algo material, mas de coração completamente envolvido, quis doar trabalho, amor, dedicação. E foi na rede social que descobri a maneira de fazer isso. Um grupo de dez jovens empresários e esportistas cariocas estava se organizando para recolher, arrumar e entregar pessoalmente, nos lugares onde houvesse real necessidade, todas as doações. Juntei-me a eles.
E assim fizeram. Estive com eles sete entre os dez dias da campanha emergencial dos primeiros dias. O que vi acontecer não sei se sou capaz de descrever nesse texto. Sob um sol de 40 graus trabalhamos em média 6 horas por dia como voluntários, separando e embalando as doações. Nos bastidores a rede de conhecimento deles, integrantes da classe média alta da sociedade, foi atendendo as várias necessidades que mudavam a cada momento. Um emprestou 2 helicópteros, outro mandou caminhões usados para transportar cavalos de raça para o haras, outro emprestou caminhões de mudança e o movimento foi crescendo. Doações chegavam de minuto em minuto no estacionamento do Parque dos Patins na Lagoa e íamos enchendo os caminhões. Trilheiros, jeepeiros, motociclistas todos se engajaram. Chegamos primeiro que as autoridades em várias comunidades isoladas e fomos atendendo a fome, a sede, ao frio e a tristeza.
O que começou de forma informal no Facebook cresceu, entrou na mídia, ganhou o coração de artistas, jogadores de futebol, intelectuais, rompeu a fronteira da nossa cidade e finalmente do nosso país. Organizaram shows beneficentes, parcerias em eventos esportivos de vôlei e futebol e fomos amealhando participantes, ganhando colaboradores.
Encerramos a fase emergencial dos primeiros 10 dias enviando a marca de 77 caminhões lotados de doações para 20 comunidades da serra. Entrei para Minha Ajuda Sua Casa quando eram 140 participantes, hoje somos 8327. Um milagre da comunicação das redes virtuais? Não. O que aconteceu foi o milagre da solidariedade, resultado de uma relação de confiança com o grupo organizador que fez por merecer essa confiança.
Nos próximos meses concentraremos esforços na reconstrução dessas comunidades. Ajuda quem puder e como puder. O importante é sair da imobilidade e do comodismo e entrar no barco da solidariedade. Posso assegurar que a recompensa é uma intensa felicidade e paz interior.
Quem quiser ver e comprovar o que eu escrevi é só acessar no Facebook ou no Twitter o seguinte nome: #Minhaajudasuacasa.
E vamos que vamos que a minha reforma íntima apenas começou!

Um comentário:
Muito facil chorar com esse texto, Inez obigado por tudo , eu te amo !
Beijos do Gus
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