domingo, fevereiro 13, 2011

"Brasileiridade"



Todos os dias, invariavelmente, eu atravesso de um lado ao outro da Avenida Brasil pela Passarela 6, ou melhor, a Passarela da Vila do João. Para quem não conhece, a Vila do João é uma das comunidades que compõem o Complexo da Maré, tida como das mais perigosas do Rio de Janeiro.

Não tem jeito, tenho que atravessar para chegar ao trabalho e nesses quase oito anos, digo que não existe lugar mais brasileiro do que essa passarela. Um shopping a céu aberto que não conta como número nas grandes pesquisas sobre o trabalho informal e precarizado.

Eu sou consumidora dos produtos da passarela 6. De bala Halls até óculos de grau, passando por guarda-chuva e bule de café já comprei de tudo por lá. O vendedor de meias me conhece, o de biscoito me vende fiado. Pode-se encontrar também, roupas e acessórios, peças para carro, comida e bebida, sapatos, perfumaria, peixes e tudo o mais que a imaginação dos vendedores quiser.

Porém não é só de produtos lícitos que vive a passarela 6. Não raro, em outros tempos, se ouvia o grito: Pó de 10! Maconha de 5! Até que um dia a polícia subiu a passarela e pacificou. Durante mais de uma semana no mínimo 3 policiais se posicionavam no inicio, no meio e no fim, armados até os dentes. Isso me dava mais medo do que os aviões do tráfico. Não iria me espantar, se um dia eu fosse subir e encontrasse a mais nova UPP instalada no alto da passarela!

A Passarela 6 é também um grande outdoor. Anuncia-se de tudo por lá. Essa semana vai ter show dançante no Atlético Clube de Acari com Os Gatinhos do Forró, apresentando a voz de ouro de Juninho Safadão. Em tempos de eleição o espaço é democrático, de dez em dez passos um partido sacode a sua bandeira. Vira Classificados quando se lê : Mãe Samantha de Oxum traz seu amor de volta em três dias ou então, Moreno/alto e bem dotado acompanha senhoras em eventos. E é usada como plataforma religiosa com farta distribuição de panfletos que garantem que Jesus nos ama se dermos o dízimo, ou que anuncia o fim de todos os nossos males se comprarmos nosso lugar no céu. Mas na passarela, o céu não é o limite!

Não posso esquecer de contar que o local também é palco de grandes e arrebatadoras paixões e de inesquecíveis cenas de ciúme. Uma vez, as 8:30 da manhã um casal de mendigos fazia amor na curva de descida da passarela, ao modo do BBB, debaixo do edredon, sem que ninguém parecesse prestar atenção neles. De outra vez, um casal de namorados discutia e no exato momento em que eu passei ela gritou: Seu galinha! E ouvi, já um pouco distante o som do tapa que estalou no rosto dele.

Também as tragédias se fizeram sentir por lá. O suicídio de um cachorro que se atirou na frente dos carros que passam na Avenida Brasil. A queda de um bêbado que rolou quase como uma bola de boliche de um lado ao outro derrubando vários transeuntes distraídos. A passagem de um “Caveirão” recebido por tiros de fuzil e a imagem de todos se atirando no chão sujo da passarela.

É por essas e por outras que decidi escrever sobre a "brasileiridade" que anda por aí, sem que se possa esconder debaixo do tapete do politicamente correto. Hoje, ao chegar no trabalho,  fazendo o que faço todos os dias, pensei que eu deveria andar com uma filmadora, porque ninguém acreditaria no que já vi por lá. Um imenso helicóptero do BOPE voava tão baixo que a impressão era que se eu estendesse a mão alcançaria seu chão. O vestido subiu, os cabelos despentearam, a passarela tremeu e eu sorri para a  realidade que é jogada na minha cara, invariavelmente, todos os dias!

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