Caixinha de Costura

Quarta-feira, Julho 08, 2009

Trajetória



Caminhavam em silêncio...
Ela imersa em pensamentos
Ele submerso em ressentimentos
Ela com vontade de conversar
Ele sem saber como se aproximar.
Caminhavam em silêncio...
Mesmo assim ouvia-se o barulho
intenso das duas bocas caladas
Ela tinha pressa, ia rápido
Ele andava lentamente.
Caminhavam em silêncio...
Ela preferia a direita para se enganar
Ele a esquerda para contrariar
Dobravam as esquinas, as diagonais,
as perpendiculares, as transversais.
Caminhavam em silêncio...
Levados no vazio das horas,
No correr inclemente do tempo
Ele vivendo, ela tentando
Ela esperando por ele confiante
E ele indo embora a todo instante.

By Inez Sodré - 8/07/2009



Terça-feira, Junho 30, 2009

Ando sem tempo...













Ando sem tempo...

Sem tempo para vir aqui e deixar uma parte de mim em letras. Sem tempo para pensar, lembrar, escrever.
Às vezes acho que meu dia nunca vai terminar. Que minha saúde esta meio atropelada pela minha vontade de ir em frente com meus planos. Os pequenos e grandes planos que construí e dos quais não abro mão. Entre o trabalho que me toma cada vez mais espaço, o estudo onde descobri uma força que não julgava ter, a fé que surgiu sem que eu percebesse de quanto eu sentia falta de dar mais atenção ao espiritual, eu vou caminhando, tentando acertar, querendo fazer o melhor.

Ando sem tempo de ler, ganhei dois livros no Natal que ainda não pude nem mesmo folhear. Não que eu não tenha lido nos últimos meses. Leio muito, todo dia, são textos e mais textos que o mestrado exige para que se possa dar significado a toda uma linha de pesquisa.
Os amigos reclamam que eu sumi, e é verdade. Falta-me tempo, força física e por vezes, até vontade. Virar noite, passar madrugadas na rua é hoje uma outra realidade, que com certeza não é a minha no momento. É claro que adoro dançar, de sair com amigas, de comemorar aniversários de quem gosto. E faço isso, mas somente quando posso, quando quero, quando escolho.

Ando sem tempo de conversar horas no MSN, de mandar recados constantes no Orkut, de jogar Acromania. A vida virtual passou a um estágio ainda mais secundário. Penso que quem é amigo de verdade há de entender essa fase.
Existe, ainda quem cobre o fato de eu estar sozinha. Dou um sorriso, digo que é a falta de tempo. Grande e incontestável desculpa. Reconheço que nesse detalhe o que me falta é interesse. Porque ando sem tempo, mas não o suficiente para esquecer o quanto é bom ter alguém para seguir junto, para me tirar do sério, para me "irresponsabilizar".
E enquanto não aparece esse alguém que valha a pena, vou brincando de ser feliz, empurrando a vida e passando o tempo, esse tempo que nem tenho...

Sábado, Maio 16, 2009

Porque acabou...


Ah! Silvana...

Gostavas de mim
não como eu gostei de ti,
gostavas de um jeito diferente,
meio inconseqüente,
enquanto eu te amava
de forma permanente.
Gostavas de mim
de um jeito assim
bastante duvidoso
e eu te amava tão gostoso.
Gostavas de mim
racionando teus sentimentos
e eu liberava os meus
em todos os momentos.
Gostavas de mim com intervalos,
semana passada, agora
e eu te amava a toda hora.
Gostavas de mim comedidamente
e eu te amava enlouquecidamente.
A verdade é que, realmente,
gostamos um do outro,
só que eu bastante e tu tão pouco.
Enfim hoje eu entendo porque acabou.
Tu apenas me gostavas
e o que eu sentia por ti era amor.

By Silvana Duboc

Sexta-feira, Maio 15, 2009

Minha dose de você



Volta! Onde você vai?
Ainda não tomei minha dose diária de você!

Não tenha pressa de sair assim da minha vida. Nunca entendi despedidas de poucas palavras. O dar as costas, o não permitir avistar nem uma só das minhas lágrimas.
Não sai dessa imobilidade. Eu preciso de um olhar meu sobre você. Para a mesma foto, para as mesmas velhas recordações. Para as horas em que já não sei o que você anda fazendo. Ontem eu conseguia reconstituir teus passos, teus hábitos, teu hálito. Hoje, não mais. Preciso dessa dose de realidade.

Calma, eu não posso deixar você ir. Não completamente, não irremediavelmente.
Preciso dessa dose de você para suportar as paredes sufocantes da minha casa vazia e para enfrentar o frio que faz dentro de mim. Preciso curar a doença de te querer tanto, de sentir tanta saudade e nada poder fazer. Eu consigo viver sem você, mas eu não quero. Recuso a cura, os paliativos, o que ameniza. Penso que esse amor é parte integrante do que sou, portanto abandoná-lo é ficar perdida, sem rumo, sem direção.

Prefiro procurar a minha dose durante o dia ou durante a noite, mas preciso da minha dose de você. Devo até me desculpar com você por te olhar tanto, te amar tanto, pensar tanto em você, por você ser o dono secreto do verde dos meus olhos. Mas é que de todas as lições que tive na vida, a única que não entendi, não aprendi, é a que ensina a esquecer. Então sossega nesse canto, faz de conta que não sabe, que não sente, que não vê e permite que eu viva dessa dose única e diária de você...

By Inez Sodré - 15/05/2009

Terça-feira, Maio 12, 2009

Antes que o dia termine


Antes que o dia termine
Sei que vou te olhar mais uma vez
Vou lembrar dos nossos beijos
Nas perfeitas madrugadas,
Na piscina, na calçada.
Antes que o dia termine
Vou tentar não falar de você
Com todos que possam me ouvir
E deixar correr livremente
O pensamento, os sonhos, a ilusão
Antes que o dia termine
Vou acender mais um cigarro,
Vou ouvir algumas músicas
E sentir tanta saudade
Do que um dia foi felicidade.
Antes que o dia termine
Sei que vou pegar nossa foto
E escrever um poema
Tendo você como tema
Sem rima, sem solução
Antes que o dia termine
Vou confirmar a certeza
De que o tempo não ameniza
O que por dentro é verdade
Antes que o dia termine...

By Inez Sodré
Imagem by Daniel Pedrogam

Sábado, Abril 04, 2009

Tua Casa


Meu corpo é a tua casa
Onde você entra sem pedir licença
Entra pelos meus pensamentos
Que estão sempre junto de ti
Entra pela minha boca
Que não cansa de dizer teu nome
Entra pelos meus olhos
Que fitam o horizonte que te envolve
Meu corpo é a tua casa
Onde você se esconde para brincar
E me deixa facilmente te encontrar
Onde você caminha com segurança
Para depois se perder feito criança
Onde você tem prazer durante a noite
E se aninha quando o dia amanhece
Onde você domina e cede
Subornando os meus desejos
Meu corpo é a tua casa
Como cofre sem segredo
Como espaço sem limite
Como vitória sem derrota
Meu corpo é a tua casa
Que eu te ofereço a cada dia
De onde só você tem a chave
E para onde sabe que pode
Para sempre voltar...
By Inez Sodré
Foto by Helder Vasconcelos

Terça-feira, Março 17, 2009

Juventude e juventudes



Fui jovem nos anos 60. Menina ainda participei com meus primos e seus amigos universitários da resistência política à ditadura militar. Digo participei, com a modéstia de quem brincava nas ladeiras de Santa Tereza atenta a todos os movimentos da rua, com a missão de avisar aos companheiros que se reuniam por ali sobre a aproximação de qualquer estranho que parecesse estranho. Tenho lembranças muito claras dessa época de medo, ousadia e questionamento. Eu me sentia importante, tratada de igual para igual pelos mais velhos e posso dizer fui jovem naqueles momentos.

Fui jovem nos anos 70. Adolescente na fase da paz e amor. Freqüentando os saraus musicais da Tijuca de onde surgiram tantos músicos dessa época: Gonzaguinha, Ivan e Lucinha Lins, Chico Buarque, e tantos outros. Foram os anos criativos da música, da arte, da literatura. Anos de Pasquim que comprávamos escondido no jornaleiro conhecido, ano de entrar em contato com drogas e decidir que não era pra mim. Anos de ser hippie de luxo, de copiar tudo que era estrangeiro, anos da busca de identidade. Fui jovem intensamente nesses dias.

Fui jovem nos anos 80. Já casada precocemente e com filhos entrando na adolescência, naquele movimento de entra e sai de amigos em casa, vi crescer neles a vontade política, o aparecer da ânsia de liberdade. Misturei-me a eles nos movimentos reivindicatórios pela volta da democracia. Democracia que eles nem conheciam, mas desejavam. Democracia que eu quase não havia conhecido. Assisti comício na Cinelândia, cantei o hino do Brasil de olhos fechados e mão no peito, vesti o verde e amarelo e de mãos dadas a eles fui jovem ao gritar: Diretas Já!

Fui jovem nos anos 90. Trabalhando em uma escola e envolvida sempre com adolescentes vi surgir a geração que queria mudanças, transformações. Questionadores de tudo, experimentando a liberdade e por vezes não sabendo bem o que fazer com ela. E novamente cheguei junto a eles. Pintei rostos, dispensei de aulas, a muitos expliquei o que significava o impeachment de um presidente antes que bradassem pelas ruas que queriam o que nem sabiam o que era. Fui jovem junto a eles, por eles, com eles.

Nos anos dois mil, penso que começo a envelhecer. Não consigo entender essa juventude fechada em si mesma, por trás de uma tela de vidro de computador, refém do mundo consumista e globalizado, que se socializa em tribos e guetos, que parecem não saber como enfrentar a mudança social, racial, sexual, comportamental. Penso que falta a eles a vontade política, a busca da identidade, o clamor da luta, a ânsia transformadora...a juventude. São adultos antes do tempo, pulam etapas, impulsionados por tantas mudanças a todo minuto. E assim na velocidade da luz, deixam de ser apenas jovens e não me permitem mais, ser tão jovem. E só me pergunto: Por que?

By Inez Sodré - Texto elaborado para a aula sobre juventude na UERJ