
Lembro perfeitamente de como começou. Acordei com uma forte dor no pé esquerdo. Era domingo, eu havia ido a uma festa de confraternização da Orkontros pelo final de ano e tinha dormido na casa da Sil. Lembro que ela brincou comigo sobre o fato de não ter mais idade para dançar a noite toda. Tomei um remédio para dor e assumi como certo ter sido consequência da festa da noite passada.
Veio o Reveillon e fui para Cabo Frio. Andava muito sentindo o pé incomodar, mas tentei não dar importância a isso, até para não atrapalhar a programação intensa daqueles dias. Quando cheguei em casa, doía o pé, doía a perna e descobri uma mancha roxa atrás do joelho. Cada um dava um palpite e resolvi marcar consulta com uma angiologista, pois achei mesmo que pudesse ser varizes o meu problema.
O diagnóstico foi o pior possível. De cara ela disse que eu tinha tido uma trombose e que teria que operar sob pena de acontecerem outras que poderiam ser fatais. Disse que eu era do grupo de risco por fumar, estar entrando na menopausa, ser sedentária. Sai do consultório com um grande número de exames para fazer e meio sem rumo. É estranho escrever meus pensamentos naquela hora. Pensei que não poderia morrer antes de julho, antes de dar parabéns a ele e corrigir um erro do ano anterior, que tinha que acabar a dissertação de mestrado, que precisava ver os netos que um dia vou ter, que não queria deixar minhas amigas...
Nos dias seguintes segui um ritual de laboratórios, tomografias, ultra-sonografias sem questionar a posição da médica. Estava tão triste que no trabalho me perguntaram o que havia e eu contei. Fui convencida a consultar outro médico. Dessa vez um super especialista da área para onde levei todos os exames. Ele olhou, olhou, me examinou, chamou o médico assistente e finalmente sorriu e disse: Você não tem nada vascular, não teve uma trombose e nem vai ter, acredito que deva procurar um ortopedista porque o que nos parece é que houve uma crise de coluna.
Entre surpresa e aliviada marquei a consulta com o ortopedista e depois do exame e do raio x, ouvi outro diagnóstico: Inflamação no joanete do pé esquerdo, sem indicação de cirurgia e com tratamento a base de fisioterapia e antiinflamatório. Já estava seguindo esses passos, quando durante uma madrugada, acordei sem conseguir me mexer de tanta dor no quadril. Meu filho apavorado chamou o pai e me levaram para o hospital. Fiquei o dia todo tomando medicação no soro e pela primeira vez senti um profundo desanimo tomar conta de mim. O médico plantonista falou em processo inflamatório nos ossos.
Nessa mesma semana começou a dor na mão direita, e descobri que um dos meus dedos estava ficando inchado, voltei ao ortopedista. O olhar dele já anunciou que algo fugiu do controle e sem dizer uma palavra escreveu num receituário o nome, endereço e telefone de um reumatologista conceituado e amigo dele. Junto com o papel veio um sorriso preocupado que tentava parecer animador, no qual tentei não me deter.
Marquei a consulta. Aquela tarde, sentada em frente ao médico, ouvi finalmente o diagnóstico definitivo: Osteoartrose, doença articular progressiva e degenerativa. Nome complicado, situação comum que incide predominantemente no sexo feminino, na idade adulta entre 4ª e 5ª décadas e no período da menopausa. Não existe cura e o tratamento é sintomático, ou seja, para aliviar a dor. O único remédio, que atualmente tem obtido um efeito de inibir a progressão da doença é um composto de sulfato de condroitina aliado a sulfato de glicosamina. Só existe um laboratório fabricante e não é nada barato, algo em torno de quinhentos reais por mês. É preciso que se use ininterruptamente durante seis meses para que se possa avaliar novamente. Não existe promessa de que vá fazer efeito, mas setenta por cento das pessoas reagem ao tratamento e a doença para de evoluir.
Lembro do vento batendo em meu rosto coberto de lágrimas durante todo o caminho até a minha casa. Lembro que não falei nada, me deitei e fiquei ali quietinha, sem consegui dormir, pensando.
O dia amanheceu e eu sabia que precisava reagir ao inesperado, do jeito habitual, enfrentando o mais rápido possível o que estava por vir.
Movi céu e terra atrás de amostras do remédio, assim durante um mês não precisei comprar. Depois entrei no cheque especial, no cartão de crédito e garanti mais um mês até que descobri uma luz no fim do túnel. Nos Estados Unidos o remédio era vendido como suplemento alimentar, sem receita e o tratamento para três meses custava oitenta reais. Em menos de quinze dias já tinha dois vidros necessários nas mãos, num daqueles lances que acontecem na minha vida e que não encontro explicação a não ser na espiritualidade, quando tudo parece sem solução as coisas se resolvem e tudo acaba de uma forma ou de outra se encaixando.
Hoje já tomo o remédio há três meses, não sei se estou reagindo ou não, mas tenho fé que sim. Entre as recomendações médicas estão: tomar antiinflamatórios intercalando um mês e outro, não usar salto alto, não permanecer de pé ou digitando mais de duas horas sem um descanso, imersão de mãos e pés em água quente a noite, não usar sapato fechado e nem sandálias de tirinhas optando se possível por calçados ortopédicos e por aí vai.
Confesso que não levo tudo isso muito a sério e tive que contar ao médico o quanto era difícil obedecer a regras que mexem com coisas importantes como a vaidade, a necessidade de escrever muito, as saídas para dançar...E ouvi dele algo que usarei para terminar esse relato:
_ Inez, consigo entender você, mas não posso te tratar como se fosse uma criança. Quer fazer essas coisas faça, mas sabendo que depois vai precisar encarar a dor. Saia, dance, use uma sandália bonita, de salto não muito alto. Mas não ouse chorar no dia seguinte. Durma sabendo que não vai conseguir pisar quando acordar. Estude, escreva, mas depois use a agua quente para aliviar a dor e mantenha sempre o analgésico para esses casos.
O processo é esse, o que você tem pode não ter cura ainda, mas não mata. Então viva. De forma a ser feliz apesar de.
De irremediável somente que terá que acostumar-se com a dor, driblar a dor, enganar a dor e finalmente aprender a conviver com a dor...
Um comentário:
Amada,sei o quanto é serio tudo isso, li tudinho e estou triste junto contigo, mas acreditando que vc vai se cuidar e vai conseguir sair vencedora! Olha, de verdade, conta comigo, para o que precisar! Eu te sinto como uma irmã, no coração! Sei que tem muitos amigos e todos estão numa corrente do bem, para vc! Sempre, todos os dias! Vc merece, você se doa e terá o dobro para vc! Beijos, te amo! Jacq
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