quarta-feira, julho 04, 2018

OS PÁSSAROS


A noite (que por lá ainda é dia) estava linda em Veneza. Um calor com brisa.
O pessoal dispersou, cada qual com seu interesse. Meu grupo resolveu procurar um restaurante para jantar antes que a música começasse nos cafés da Piazza San Marcos.
Como eu já disse, não gostei da culinária italiana. Sendo assim, fui passear.


De lojinha em lojinha...fascinada pelos vidros de Murano, seduzida pelas bolsas de Firenze, apaixonada pelas máscaras do carnaval veneziano...o tempo passou. Me dei conta que precisava comer alguma coisa ou ao invés de dançar ia era desmaiar nos braços do italiano.
Parei em um bar típico e isso significa não ter mesa, não ter talher e ter o tratamento ríspido no atendimento. Mas o piadina compensava tudo isso!

Piadina é um sanduíche bem recheado do tamanho de uma baguete, mas feito de uma massa crocante da finura de um crepe e enrolado feito um rocambole...entendeu?
A menina enfiou meu lanche reforçado em um saco e lá fui eu toda feliz pelas vielas procurando um lugar para ficar.


Piadina em uma mão, coca zero na outra vislumbrei um lugar vazio. Era uma escada na frente de um pequeno castelo e entre duas estátuas de leão.

Estava exausta e faminta. Sentei, abri a latinha, coloquei o canudo e descansei a lata do meu lado esquerdo. Tirei o sanduíche do saquinho e o cheiro inundou minha vontade.

Abri a boca para a primeira mordida e...


Pense na música mais sinistra do filme Pássaros de Hitchcock...com aquele silencio que antecede a cena de terror.
Tudo ficou paralisado e eu só ouvi o barulho ensurdecedor de asas batendo...duas, quatro, seis, vinte gaivotas voando em cima de mim!
Levantei e em um segundo arrancaram meu sanduíche e me empurraram para trás. Ainda pude ver o meu piadina sendo arrastado e trucidado por bicos mais velozes do que qualquer mix do mundo.


Acho que não consigo descrever o grito que dei...foi como um longo agudo da primeira soprano do Teatro La Fenice. Espantei os pássaros, atrai todos os olhares e ouvi todas as risadas.

Naquele exato momento descobri porque que em um lugar tão cheio existia uma escadaria vazia convidando uma turista a sentar para lanchar.


Tremia inteira, vermelha de vergonha e indignação com o roubo. Sai dali correndo entrando na primeira viela que apareceu.

Foi aí que esbarrei com ele e ouvi:


_ Che cosa è sucesso, amore mio?


The End.

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