terça-feira, abril 25, 2006

Na minha vida, por um dia, tive Vinicius.


Queria contar para vocês uma história, uma história minha...daquelas histórias que o tempo não apaga, que o coração não esquece.

Foi um dia só, um claro e quente dia de verão, um dia que valeu por uma vida...

Maio de 1970, uma menina de apenas 14 anos que ganhou na escola um concurso de redação, uma crônica sobre a música Garota de Ipanema e cujo prêmio foi passar um dia com o maior poeta de todos os tempos: Vinicius de Moraes.

Ele me esperava parado na porta do restaurante que freqüentava habitualmente, o Antonio's no Leblon. Com um sorriso no rosto, apertou minha mão, me deu dois beijinhos nas bochechas e percebendo como eu tremia, fez um afago nos meus cabelos e me levou até a mesa. Lá estavam sua esposa Gessy e uma de suas filhas. Eu não conseguia abrir a boca, fiquei repentinamente tímida, meio fora do ar. Só respondia as perguntas que ele fazia, sobre a escola, sobre meu hábito de escrever, sobre o estilo das coisas que eu escrevia...e ele foi assim conduzindo, analisando, tentando me deixar a vontade. Pra dizer a verdade não me lembro o que foi servido no almoço, lembro de ter um copo com gelo e uma garrafa de uísque com uma etiqueta escrita Vinicius em cima da mesa. Ele tinha um jeito preguiçoso de falar, tinha andado meio gripado na semana anterior e a voz rouca era agradável aos ouvidos...

De lá fomos para o apartamento dele, que ficava a dois prédios do restaurante. Lembro da sala ampla, da rede pendurada em um canto, da enorme mesa de jantar.... e foi ali que consegui, já sentada no chão, falar de mim. Dos meus planos, da atriz que eu queria ser, das músicas que eu tanto gostava. Ele recostado na rede, copo de uísque na mão, apenas sorria e prestava atenção. A certa altura pegou o violão e tocou pra mim e para filha algumas músicas que tinha composto e que ainda eram inéditas. A tarde passou ligeira, um lanche foi colocado na mesa, e então num bloco que estava posto na mesinha de telefone ele rabiscou umas linhas....ao final me disse:
_ Quero dar a você dois presentes simples, para que você guarde como lembrança desse dia.

Pegou um livro na estante, escreveu uma dedicatória e me entregou. O livro era: Para uma menina com uma flor. A dedicatória vou postar hoje aqui, para dividir com vocês o quão lindo foi esse presente.

O outro presente nunca vou poder mostrar, perdi pela vida. Foi um poema, feito ali e para mim. Um soneto que ele deu o nome de Soneto para os olhos de Ines ou Soneto para o olhar de Ines, não consigo me lembrar do título. Eu nunca o vi publicado, mas nunca vou esquecer. Aquela folha de bloco, um tesouro, não sei onde foi parar...mas a minha cara de boba continua desenhada no meu rosto nesse momento em que estou escrevendo.
Na porta do apartamento, na hora da despedida ele ainda me disse para nunca parar de escrever e nunca desistir dos meus sonhos.
Um homem culto, um poeta maravilhoso, uma pessoa simples que fez de mim a pessoa mais feliz do mundo por um dia.

Vinicius de Moraes nasceu em 19 de outubro de 1913 e faleceu no dia 9 de julho de 1980. Deixou um legado de inúmeros poemas e músicas e teve o original de seu último livro: O Dever e o Haver extraviado.

Um comentário:

Anônimo disse...

Nossa meu anjo, tem coisas que ficam pra sempre no peito...E uma tarde com o poetinha, nossa senhora rsrs...beijos