Eu não venho de família de sambistas.
Eu não cresci ouvindo falar de escola de samba.
Eu não sei sambar direito. Aliás, eu nem gosto de quadra de escolas de samba. Até alguns anos atrás eu nunca tinha pisado em uma quadra. Na adolescência eu dizia que era Portela, porque achava estranho todos terem uma escola para torcer e eu nem me importar com isso.
Entrei na Beija Flor pelas mãos da Nívea Frutuoso. Ela gostava do que eu escrevia e queria porque queria fazer um samba comigo hehehe. Entrei no ano do enredo sobre Roberto Carlos. Pisei em Nilópolis e na quadra pela primeira vez quando fomos entregar o CD do nosso samba. Um arrepio, uma vontade de chorar, uma intimidade e uma alegria foi o que eu senti nesse dia.
Nos próximos três anos estive presente em todas as eliminatórias de samba e em vários ensaios da comunidade. Eu ficava no espaço da família e amigos do Laíla, mas confesso que invejava aquelas pessoas ensaiando no chão, suadas, vibrantes. Algumas vezes eu descia só para sentir mais de perto aquela energia. Apenas uma vez o Sr. Osvaldo me viu e me chamou para ensaiar junto com eles. Pronto. Estava comprovado o meu pertencimento. Eu era parte daquele ritual. Eu me batizei como nascida e criada em Nilópolis naquele dia e posso dizer que o Sr. Osvaldo foi o meu padrinho. E ai de quem disser que eu não sou parte da comunidade Nilopolitana da Beija Flor!
No ano do Mangalarga fomos para a final. Emoção imensa. Mas meu único pensamento era: Imagina a minha comunidade cantando o nosso samba na Avenida? Não vencemos e a história dessa parceria foi tão traumatizante, para mim, que nunca mais quis saber de fazer samba.
A partir desse ano, eu me virava nas caronas, me inscrevi na ala do Beto, andava de trem, voltava rachando táxi às 4 da madrugada, trabalhava virada no dia seguinte, até que vi um rapaz puxar uma arma e atirar em outro bem na minha frente na rua da quadra. Perdi a coragem, achei que não desfilaria mais.
Então veio a oportunidade do ensaio na Cidade do Samba. No Grupo Arte na Veia, comandado por Claudio Armanni, desfilei nos últimos três anos. Uma oportunidade diferenciada para as pessoas que residem distante da quadra, mas que tem um sonho, uma vontade, um amor pela Beija Flor.
Esse ano fomos 4 vezes (uma por mês) a Nilópolis.
E aqui começa meu desabafo.
Desde agosto o Laíla falava de como seria o desfile. Dizia que seria diferente. Dizia que as fantasias seriam levíssimas, dizia que que o samba deveria conter o tribal e ser cadenciado para o desfile de uma tribo com componentes livres para movimento e canto. E ele não mentiu. Todos pareciam ter comprado a ideia. Aliás, se tivéssemos ganho eu não estaria escrevendo esse desabafo. Todos estariam elevando o diretor e a comissão a categoria de deuses.
Na minha humilde opinião, de leiga de Carnaval, mesmo os jurados não entendendo a nossa proposta, não perdemos por conta disso. Perdemos para nós.
Minha decepção com algumas pessoas é imensa.
Pegar a fantasia e começar a postar nas redes sociais que não gostou, que está feia, que não tem brilho (também não tinha peso e nem machucava), que não era de luxo....não ajudou em nada a formar uma opinião de quem estava fora do desfile.
Fazer galhofa, ironia com um samba aclamado na quadra e premiado por pessoas que realmente entendem de música, letra, andamento...não ajudou em nada a formar uma opinião de quem estava fora do desfile.
Reclamar de um enredo brasileiro dizendo que preferia falar do Egito por ser mais luxuoso....não ajudou em nada a formar uma opinião de quem estava fora do desfile.
Apoiar uma verdadeira revolução inovadora na forma de desfilar e agora dizer que isso foi errado, inclusive falando da Harmonia (nota dez), da comissão de carnaval (que tantos títulos nos deu) e do nosso Diretor de Carnaval que dá até a saúde em nossa defesa, é no mínimo incoerência e ingratidão.
Dizer que o nosso casal perdeu pontos por causa da roupa apesar do bailado perfeito é triste de se ler.
Dizer que esse Carnaval é para ser esquecido é cruel.
Lembro da comunidade da Vila Isabel defendendo a sua escola quando vieram vestidos de calcinha e cueca e me pergunto...cadê o amor pela bandeira?
Quanto a mim...
Adorei o desfile. O melhor que vivi até hoje. Cantei o samba junto com quem me via passar. Minha fantasia não pesava, não me machucava, não me fez desmaiar de calor ao chegar na Apoteose, não tolhia meus movimentos e fiz toda a coreografia ensaiada.
De ruim só o tempo de concentração. Entendendo que de meia noite às quatro era o tempo para a maquiagem, para todos chegarem, para arrumar a escola, ainda assim acho muito. Mas não estava previsto o atraso por conta do acidente da Tuiutí e do Trelelê da presidente do Salgueiro para limpar o chão antes dela passar. Isso nos deixou seis horas na espera e com um cansaço natural de quem já está com a malha e parte da fantasia sem ter onde sentar e com banheiros imundos e também nos fez desfilar com o dia claro e sem o efeito das luzes.
É isso...Estarei lá amanhã com o nariz quase encostando nas nuvens de tanta cabeça erguida. Acredito que seja o meu último desfile, porque a artrite em ambos os pés torna doloroso desfilar com os sapatos das fantasias. Mas vou deixar pra pensar nisso mais pra frente...rsrs
Essa é a minha opinião. Se você não concorda eu entendo, mas me dê o direito de expressa-la, como eu dou a você o direito de ter a sua concordando com ela ou não.
03/03/2017
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