quinta-feira, novembro 08, 2012

De casarões, ruas e lembranças




Eu e minhas andanças por Botafogo. É claro que tenho minhas ruas preferidas...a Bambina é uma delas. Tem um quê de Copacabana essa rua. Tem de tudo em três quarteirões.
Passo pela Bambina toda segunda e quinta à noite... e tem algo que vem me atraindo. 
Existe bem no meio dela um casarão. Dois andares, dois salões de pé alto e janelas imensas, de onde se vê muito espaço vazio, luz suave e sempre tem música. Pessoas de diferentes tribos saem e entram lá. Tem um quê de meu passado naquela casa.
Parece um lugar ideal para os happenings.  Tão na moda nos anos 70, eram aulas de teatro que misturavam música, expressão corporal, pintura, terapia em grupo e maconha. rs Fui a uns dois ou três. 

Aqui preciso abrir um parêntese. Fui hippie...de luxo , é claro. Daquelas que tomavam banho, faziam as unhas e os cabelos e que depois do final de semana acampando tinham casa confortável pra voltar. Mas fui hippie. Da paz e amor, dos longos cabelos com flores pra enfeitar, com saia longa e de bata, com cordão de couro com crucifixo pendurado e sandália franciscana nós pés. 
Fui hippie, apaixonada pelo Jimmy Hendrix. Com um pôster dele em tamanho natural na parede do quarto, com o vinil de Woodstock tocando a faixa do solo de guitarra umas 20 vezes por dia.  Dessa paixão, lembro da minha avó, preconceituosa e aportuguesada que a cada vez que entrava no meu quarto dizia: Não sei como você consegue dormir com esse preto enorme te olhando! E fazia o sinal da cruz. Ela não sabia de nada...rs
Fui hippie das rodinhas de maconha sem maiores conseqüências, a não ser, um certo ar abobalhado e uma fome inacreditável. Experimentei, fumei uma, duas vezes e depois conclui: Não gosto dessa porcaria que me deixa com cara de retardada e afeta meu raciocínio. Fui hippie, até que cheguei aos 17 anos e resolvi casar!

Voltando ao lugar onde estava antes desse parêntese, voltando ao casarão. Qualquer dia eu entro lá e pergunto o que tem dentro. O que tem que me atrai tanto. O que acontece por lá que minha alma teima em querer participar...qualquer dia...quando eu for novamente a menina de tempos atrás.

By Inez Sodré
Foto de domínio público.

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