terça-feira, março 17, 2009

Juventude e juventudes



Fui jovem nos anos 60. Menina ainda participei com meus primos e seus amigos universitários da resistência política à ditadura militar. Digo participei, com a modéstia de quem brincava nas ladeiras de Santa Tereza atenta a todos os movimentos da rua, com a missão de avisar aos companheiros que se reuniam por ali sobre a aproximação de qualquer estranho que parecesse estranho. Tenho lembranças muito claras dessa época de medo, ousadia e questionamento. Eu me sentia importante, tratada de igual para igual pelos mais velhos e posso dizer fui jovem naqueles momentos.

Fui jovem nos anos 70. Adolescente na fase da paz e amor. Freqüentando os saraus musicais da Tijuca de onde surgiram tantos músicos dessa época: Gonzaguinha, Ivan e Lucinha Lins, Chico Buarque, e tantos outros. Foram os anos criativos da música, da arte, da literatura. Anos de Pasquim que comprávamos escondido no jornaleiro conhecido, ano de entrar em contato com drogas e decidir que não era pra mim. Anos de ser hippie de luxo, de copiar tudo que era estrangeiro, anos da busca de identidade. Fui jovem intensamente nesses dias.

Fui jovem nos anos 80. Já casada precocemente e com filhos entrando na adolescência, naquele movimento de entra e sai de amigos em casa, vi crescer neles a vontade política, o aparecer da ânsia de liberdade. Misturei-me a eles nos movimentos reivindicatórios pela volta da democracia. Democracia que eles nem conheciam, mas desejavam. Democracia que eu quase não havia conhecido. Assisti comício na Cinelândia, cantei o hino do Brasil de olhos fechados e mão no peito, vesti o verde e amarelo e de mãos dadas a eles fui jovem ao gritar: Diretas Já!

Fui jovem nos anos 90. Trabalhando em uma escola e envolvida sempre com adolescentes vi surgir a geração que queria mudanças, transformações. Questionadores de tudo, experimentando a liberdade e por vezes não sabendo bem o que fazer com ela. E novamente cheguei junto a eles. Pintei rostos, dispensei de aulas, a muitos expliquei o que significava o impeachment de um presidente antes que bradassem pelas ruas que queriam o que nem sabiam o que era. Fui jovem junto a eles, por eles, com eles.

Nos anos dois mil, penso que começo a envelhecer. Não consigo entender essa juventude fechada em si mesma, por trás de uma tela de vidro de computador, refém do mundo consumista e globalizado, que se socializa em tribos e guetos, que parecem não saber como enfrentar a mudança social, racial, sexual, comportamental. Penso que falta a eles a vontade política, a busca da identidade, o clamor da luta, a ânsia transformadora...a juventude. São adultos antes do tempo, pulam etapas, impulsionados por tantas mudanças a todo minuto. E assim na velocidade da luz, deixam de ser apenas jovens e não me permitem mais, ser tão jovem. E só me pergunto: Por que?

By Inez Sodré - Texto elaborado para a aula sobre juventude na UERJ

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